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sábado, 19 de setembro de 2009

INDÚSTRIA DA NOTÍCIA

Jornalismo, a objetividade subjetiva1
Por Felipe Pena em 6/2/2007
Reproduzido de O Globo, 3/2/2007; intertítulos do OI
O artigo do jornalista Ali Kamel, publicado no Globo no dia 23 de janeiro, apresenta
uma pertinente reflexão sobre o jornalismo na atualidade. [Ver "Quando o óbvio não
é óbvio para todos"]
Ao defender o argumento de que a profissão constitui uma forma de conhecimento
da realidade e não um campo de batalhas ideológicas, o autor parece enveredar pelo
caminho correto. Entretanto, gostaria de contextualizar tal linha de raciocínio e
propor novas considerações.
Para começar, é preciso não confundir forma de conhecimento da realidade com
espelho dessa mesma realidade. Ou seja, não acreditar na ingênua visão de que as
páginas do jornal refletem fielmente os acontecimentos cotidianos, sem qualquer
interferência em sua construção. O próprio Kamel afirma que o máximo que se pode
conseguir é uma aproximação, já que nem a ciência é capaz de atingir a verdade e a
objetividade total.
Quero, então, defender a idéia de que o jornalismo participa da construção social da
realidade, e isso é muito mais do que um simples instrumento para conhecê-la. Em
outras palavras, é no trabalho da enunciação que os jornalistas produzem os
discursos, que, submetidos a uma série de operações profissionais e pressões
sociais, produzem o que o senso comum das redações chama de notícia.
Idéia conspiratória
Entre a infinidade de fatos apurados pelos jornalistas, só alguns serão publicados ou
veiculados, levando em consideração critérios como a característica do veículo, suas
rotinas de produção e a própria presunção de quem é o seu público. Portanto,
estamos distantes da hipótese do espelho descompromissado da realidade.
No jornalismo, a objetividade não surgiu para negar a subjetividade, mas, sim, para
reconhecer a sua inevitabilidade. Seu verdadeiro significado está ligado à idéia de
que os fatos são construídos de forma tão complexa e subjetiva que não se pode
cultuálos como expressão absoluta da realidade.
Pelo contrário, é preciso desconfiar desses fatos e propor um método que assegure
algum rigor ao reportá-los. Foi com esse espírito que foram criadas as técnicas do
lead e da pirâmide invertida na virada do século XIX para o XX. Elas substituíram o
jornalismo opinativo pelo factual, priorizando a descrição objetiva dos fatos.
Conforme deixou claro o jornalista americano Walter Lippmann, que sistematizou
essas técnicas em 1920, no livro Public Opinion, "o método é que deveria ser
objetivo, não o repórter".
1 Disponível em: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=419JDB004
Para concluir, volto à hipótese do jornalismo como campo de batalhas ideológicas,
descartada por Ali Kamel.
Não é possível defender a idéia conspiratória de manipulação deliberada das notícias
em favor desta ou daquela visão política de mundo.
Batalhas ideológicas
Mais do que anacronismo, seria desconhecer o funcionamento de uma redação e
menosprezar o leitor. A produção de notícias é planejada como uma rotina industrial,
com procedimentos próprios, limites organizacionais e, principalmente,
consumidores exigentes, capazes de reconhecer intenções manipuladoras nas
reportagens.
As normas jornalísticas têm muito mais importância do que preferências pessoais na
seleção e filtragem de notícias. Entretanto, se, como venho argumentando ao longo
deste texto, a objetividade surge porque há uma percepção de que os fatos são
subjetivos, então também podemos concluir que eles são mediados por indivíduos
com interesses, carências, preconceitos e, inclusive, ideologias. Nesse sentido, o tal
campo de batalhas ideológicas talvez não possa ser totalmente descartado, mesmo
que amenizado por um conjunto de procedimentos.
Um paradoxo cuja eficiente administração caracteriza o que se pode chamar de bom
jornalismo.

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